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SOBRE O PROJETO:
GRUMO: PENSAMENTOS EM TRÂNSITOA revista Grumo tem como objetivo principal inaugurar um espaço de publicação de textos de literatura e de crítica sobre literatura, arte e cinema, que sustente, a longo prazo, um projeto amplo de diálogo entre culturas. O projeto, que se iniciou como intercâmbio cultural entre Brasil e Argentina, atualmente foi ampliado para toda a América Latina.
Os próximos dois números da revista abordarāo o tema
Populações e territórios: o global, o nacional e o local no agenciamento de identidades e na diversificação da cultura, no contexto do programa Cultura e Pensamento.
A recorrência da questão das identidades tanto na arte e na literatura quanto nas ciências sociais e, em geral, no debate crítico revela a atualidade e a importância dessa problemática. A proposta
Grumo: pensamentos em trânsito busca uma abordagem multi e interdisciplinar, incluindo debatedores de diferentes áreas da arte e do conhecimento.
Literatura e IdentidadePartimos da literatura não somente porque é o eixo da revista Grumo, mas também por uma justificativa epistemológica: tanto no Brasil quanto no resto da América Latina a preocupação pela identidade nacional é constitutiva da literatura, a tal ponto que, no século XIX, fundar uma nação e fundar uma literatura foi um mesmo processo. Quer dizer que ambos os conceitos literatura e nação estão intimamente relacionados e são, inclusive, interdependentes: as literaturas nacionais são, ao mesmo tempo, produtos e constituintes parciais do sentido de identidade nacional.
Na América Latina, a constituição das nações implicou na necessidade de se perguntar como integrar as diferenças culturais locais no interior de uma cultura nacional. Ao longo da história da literatura brasileira e hispano-americana, tem havido vários movimentos literários de procura consciente e sistemática da identidade nacional: por exemplo, o romantismo, o modernismo, os diversos regionalismos (como o romance do nordeste brasileiro e o romance indigenista andino) e os romances do
boom dos anos sessenta, estes últimos preocupados em encontrar uma identidade latino-americana. No entanto, na maioria dos casos, a região era definida como possuindo uma unidade homogênea, um conjunto de características que lhe conferiam uma dimensão estática. Esses modelos de representação, seja da América Latina ou das diferentes regiões, hoje estão em crise.
Atualmente, a identidade se entende mais como uma tarefa histórica do que como soma de atributos intrínsecos, enfatizando-se a diferença em detrimento da unidade. Desde a segunda metade do século XX, vem se produzindo um questionamento das categorias de identidade e de nação, que começam a ser pensadas como construções discursivas, isto é, como conceitos históricos e flexíveis. A partir de então, também se abandona a idéia de um cânone único e oficial. Assim, o foco dos estudos sobre literatura mudou de uma preocupação com a construção de uma literatura nacional para a procura da representação da heterogeneidade no interior de cada nação. Começaram a introduzir-se, no cânone da literatura nacional, formas da chamada cultura popular, marginalizada pela tradição literária erudita, assim como a produção de outros grupos desprivilegiados como as comunidades indígenas ou africanas, antes excluídas ou relegadas a segundo plano, sob a categoria de folclore.
Essas mudanças dão conta das particularidades da modernização na América Latina e de sua inserção no cenário da globalização, mostrando as tensões entre as diferenças culturais internas às nações. Com a reconfiguração das nações latino-americanas, depois dos períodos ditatoriais, a política identitária ganha força perante a política partidária, apontando para uma pluralização de vozes e focos de poder, que são focos de discurso. Outras vozes antes silenciadas começam a intervir na arte, na literatura e na cultura. Pode-se dizer que, desde os anos 90, a produção artística vem assumindo diversos compromissos com o crescimento dos chamados novos movimentos sociais, que trazem à cena política novos atores e novas práticas. Assim, por exemplo, a vinculação da criação artística à experiência cotidiana de comunidades excluídas no cinema se revela numa mistura do documentário com a ficção.
Da mesma forma, vem ocorrendo mudanças na epistemologia das ciências sociais. Por exemplo, os debates produzidos no interior da disciplina antropológica evidenciam um colapso do paradigma científico sujeito-objeto, numa época em que o outro (não letrado) não pode ser mais entendido como objeto passivo de conhecimento, e sim como sujeito político, que negocia seu lugar na arena da representação. De maneira que se pode pensar o conhecimento como uma negociação de forças que se produz nas relações interculturais.
Assistimos, assim, a uma dialética entre o particular e o universal, ou entre o local e o global. A princípio, pareceria que o processo de globalização provoca o rompimento da associação imediata entre espaço, identidade e cultura. No entanto, a dimensão cultural do local atua na globalidade como um fio invisível que vincula os indivíduos ao espaço, marcando uma certa idéia de diferença ou de distinção entre comunidades. Assim, o local constitui-se em suporte e condição para as relações globais. Podemos dizer que é nesse sentido que as culturas nacionais atuam como fontes principais de identidade cultural, pois a cultura nacional contribui para unir as diferenças numa única identidade. Consideramos que é necessário questionar a idéia, muitas vezes associada ao conceito de globalização, de que vivemos numa época na qual a nação está perdendo seu lugar privilegiado de produtora de sentido de identidade.
Proposta do debateO debate proposto pretende discutir práticas artísticas, literárias e culturais produzidas em diferentes regiões do Brasil, que resultam em diferentes formas de lidar com a modernização e a globalização. Trata-se de pensar as relações entre identidade, território e nação. Dado o caráter transnacional da publicação, estimula-se também a comparação de tais práticas com as de outros países da América Latina.
Edições especiaisAs duas edições da revista pretendem abordar o tema
Populações e territórios: o global, o nacional e o local no agenciamento de identidades e na diversificação da cultura, através de dois dossiês, intitulados Dossiê debate: identidade, espaço e cultura. Estes contarão com seis participantes cada um, de diversas áreas do âmbito acadêmico, que incluem Letras, Sociologia, Antropologia, Geografia e Comunicação Social.
Os doze debatedores são: Elenise Faria Scherer (Manaus),
Ângela Prysthon (Recife),
Angélica Madeira (Brasília),
Beatriz Resende (Rio de Janeiro),
Carlos Capela (Florianópolis),
Mónica Bernabé (Rosario, Argentina),
Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior (Belém),
Eneida Leal Cunha (Salvador),
Adalberto Müller (Brasília),
Raúl Antelo (Florianópolis),
Marildo Nercolini (Rio de Janeiro) e
Florencia Garramuño (Buenos Aires, Argentina).
Além dos dossiês de debate sobre o tema escolhido, os dois números incluirão outras seções tradicionais da revista, que dialogarão com as problemáticas e as abordagens dos dossiês de debate. Assim, o primeiro número terá, além do Dossiê Debate, um dossiê organizado e apresentado pelo professor de Comunicação Social da UFRJ,
Denílson Lopes, sobre cinema brasileiro e argentino contemporâneo, privilegiando abordagens transculturais que situam o cinema da América Latina dentro de uma discussão sobre a globalização, comparando-o com outros cinemas de regiões periféricas. Nesse primeiro número, incluiremos também um conto da escritora argentina
Luisa Valenzuela, que fala do retorno a sua cidade, Buenos Aires, depois de vários anos de exílio. Haverá também uma seção de resenhas que contemplará romances e livros de ensaios publicados recentemente no Brasil e em outros países da América Latina sobre a questão das identidades locais, regionais e nacionais.
Já o segundo número terá, além do Dossiê Debate, um segundo dossiê, intitulado Experimentações urbanas", que incluirá textos acadêmicos sobre a relação entre arte, escrita e cidade, colocando em destaque práticas culturais não-hegemônicas que fazem emergir novas subjetividades e sociabilidades no espaço urbano, além de uma seleção de poetas peruanos contemporâneos, selecionados a partir do blog
www.urbanotopia.blogspot.com, e um testemunho do poeta e escritor
Guilherme Zarvos, um dos fundadores, no início dos anos 90, do CEP20000, um centro de experimentação poética no Rio de Janeiro. Como o primeiro, este número terá uma sessão de resenhas sobre livros recentemente publicados na América Latina.
Algumas temáticas fundamentais perpassam os dois dossiês: entre elas, a análise de modelos alternativos de urbanidade, com foco em algumas cidades brasileiras como Belém e Salvador, em que ficam em evidência os paradoxos e as contradições da globalização; as diferentes manifestações culturais, como artes plásticas, cinema, literatura e música, que colocam em questão as relações entre global, local e nacional; a revisão de paradigmas modernos no que se refere à dialética de exclusão e inclusão que perpetuavam no campo da cultura e da política.
Os dois números contarão com um trabalho visual organizado pela curadora argentina
Lara Marmor. Sua proposta foi convocar um grupo de artistas que procurarão uma experiência coletiva de vivência na cidade, abordando os vínculos que surgem entre os sujeitos ao gerarem um trabalho coletivo. O eixo conceitual gira em torno do tema "Experimentações urbanas, assim como o dossiê da Grumo 6, que abre a possibilidade de se pensarem diferentes questões contemporâneas: a cidadania em tempos pós-modernos, os deslocamentos entre cidades, a clandestinidade, a precariedade, a marginalidade, o surgimento de novas comunidades, a urbanidade como experiência subjetiva.
Os artistas convocados foram: A
na Amorosino (fotografia e desenhos),
Estanislao Florido (pinturas e vídeos),
Florencia Levy (pintura, fotografia e vídeos),
Horacio Abram Luján (intervenções),
Jorge Miño (fotografia),
Luis Lindner (desenho e pintura) e
Santiago Porter (fotografia).
Editores da revista Grumo:Paloma VidalDiana Klinger Mario CamaraPaula Siganevich